Experimento do encarceramento de um corpo-cor
2020

Videoarte e fotoperformance

Dimensões variáveis 

Captação e registros: Marina Rombaldi

Edição de imagem: Gabriela Cunha

Figurino: Mariá Lorenzi

Fonte: Acervo pessoal da artista (2021).

Experimento do encarceramento de um corpo-cor consiste em uma foto performance realizada dentro do espaço privado do quarto da artista no contexto da pandemia. O corpo-cor se movimenta, se molda, se debruça sobre si mesmo, em movimentos e posturas que surgem como sugestões a partir do ângulo reto da parede. A captação de imagem foi feita com o próprio celular da artista.

A vídeo arte intitulada Exercícios de um corpo-cor em espera: ato I é a compilação dessas imagens, intercaladas e interconectadas com as imagens e captações de som feitas tanto antes quanto durante a pandemia do COVID-19. 

Nada fazemos hoje que não seja a partir dos objetos que nos cercam

 - Milton Santos, A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção, 2006.

É negado o ritmo veloz. Uma pausa à escuta. Uma miragem comportamental dentro de exercícios de concentração, corporificados e forçadamente pacíficos. De repente, tudo o que foi feito até então se encaixa como uma espécie de prólogo para o que se passa neste momento. Talvez seja uma coisa, uma outra coisa. São descobertas do agora: sons e imagens captadas em tempos anteriores, lá fora, versus sons e imagens que acontecem aqui dentro. À espera.

 

Exercícios no espaço, movimentos dentro de um tempo, preenchimento de lacunas, uma tessitura de vazios. Desafiada pelo dia e pelo fluxo, afogada na areia travada da ampulheta. Entre o saber e o não saber, há um universo inteiro de possibilidades. Até a próxima dúvida, o caminho é uma certeza passageira. Não há tempo hábil para o físico deslocar-se, tampouco há espaço hábil. 

 

É o encarceramento de um corpo-cor, satiricamente ou literalmente, o que seja. Enfrentar uma nova ordem própria das coisas, pensando o corpo como casa, a casa lá de fora, a vista daqui de dentro. “Penetração, ovulação, germinação, expulsão” (Lygia Clark, obra A casa é o corpo. Penetração, ovulação, germinação, expulsão, 1968), processo criativo dentro dos limites do que é experimentável, unindo esses escombros híbridos de vivências.

 

Assim, surge o sentimento de um pouco de morte no trabalho artístico. O que antes era do lado de lá, agora está oculto, preso em um lapso temporal do lado de cá e, por agora, permanece dialogando com nada mais do que si mesmo. É a forma de lidar com uma perda temporária: a perda da possibilidade de se deslocar e reivindicar espaços. O que resta são registros de vivências e tempos, vistos do lado de cá da janela em relação ao mundo que dialoga com um eu aqui dentro e um eu que está lá fora – a cidade. Ora o diálogo acontece em solo urbano, ora o diálogo parece obrigatoriamente se internalizar. Na mais iluminada das perspectivas, uma arte agora suspensa.

 

A palavra vira corpo, o espaço vira corpo, o tempo vira corpo. Mescla de pesos e fisicalidades em uma angústia sobre a tentativa de manter aceso o exercício sobre o corpo-cor. Esse corpo que antes se depositava na linha da forma, na densidade da cor, no limite entre uma coisa e outra dentro da cidade, agora se debruça sobre si em ensaios e experimentos. Talvez seja uma visão caleidoscópica juntando esses escombros do interno e buscando uma estrutura da imagem lá de fora. Não sei se é possível, mas o corpo que anunciava o repensar nas relações com o urbano, reordenando e provocando um prolongamento nas ideias de solidez, flexibilidade e ocupação da cidade, agora vira brinquedo de si mesmo. Talvez um inside progress. 

 

Sobre a pesquisa do corpo-cor no espaço da cidade, escrevi que poderia ser uma possibilidade de reordenar e provocar. Agora, impossibilitada de vivenciar o espaço urbano, reordeno a solidez e a flexibilidade do que é rígido neste corpo e neste espaço que me pertence, o espaço de dentro, com exercícios de ocupação, sendo muito mais do que algo que acontece nos corpos e no espaço, algo que se faz com os mesmos.

 

Entre o corpo-cor-mole-estruturado que se faz lá fora e o que se criou dentro, há uma noção de copresença. Operar junto, mas de formas isoladas. Se criam relações de análises e conceitos que antes se direcionavam para pensar corpografias do espaço, desvios e presenças e, agora, inevitavelmente, falam de relações e laços um pouco mais internos.